Peso ideal existe? O que a ciência diz
De onde vêm as fórmulas de Devine, Robinson, Miller e Hamwi, por que elas dão faixas e não metas, e o que importa mais do que o número da balança.

"Qual é o meu peso ideal?" é uma das perguntas mais comuns de quem começa a treinar. As fórmulas existem há décadas e dão um número em segundos — mas esse número significa bem menos do que parece. Entender de onde elas vêm ajuda a usar o resultado do jeito certo.
De onde veio a ideia de "peso ideal"
A expressão se popularizou nas tabelas das seguradoras de vida americanas, em meados do século XX, que cruzavam altura e peso com a mortalidade dos seus clientes. Depois vieram as fórmulas médicas, entre as décadas de 1960 e 1980, com uma tarefa bem específica: estimar doses de remédios e fazer avaliações rápidas em hospitais. O próprio nome foi mudando: as tabelas passaram a falar em peso "desejável" justamente por causa das críticas ao "ideal".
Nenhuma delas nasceu para dizer quanto uma pessoa "deveria" pesar para ser saudável, e muito menos para definir um corpo bonito. Elas descrevem uma referência estatística — útil, mas limitada.
As fórmulas clássicas
Todas partem da altura acima de 1,52 m (5 pés), medida em polegadas, e somam um peso-base diferente para homens e mulheres. A mais conhecida, a de Devine, faz assim:
- Homens:
50 + 2,3 × (polegadas acima de 60) - Mulheres:
45,5 + 2,3 × (polegadas acima de 60)
As outras mudam o peso-base e o quanto se soma a cada polegada:
| Fórmula | Característica |
|---|---|
| Devine (1974) | A mais usada em hospitais; dá valores intermediários |
| Robinson (1983) | Uma revisão da Devine; costuma dar valores um pouco menores |
| Miller (1983) | Cresce menos com a altura; valores menores para pessoas altas |
| Hamwi (1964) | A mais antiga; tende a valores maiores para homens altos |
Para um homem de 1,75 m, as quatro dão entre 68,7 e 72,0 kg, com média de 70,0 kg; para uma mulher de 1,65 m, entre 56,4 e 59,8 kg, com média de 57,7 kg. Dá para calcular o seu peso ideal pelas quatro fórmulas de uma vez e ver a faixa inteira. Para quem tem menos de 1,52 m, os resultados perdem confiabilidade, porque as contas partem justamente dessa altura.
Por que são faixas, e não metas
Nenhuma das fórmulas olha para o que o corpo tem por dentro. Duas pessoas com a mesma altura podem ter o mesmo peso e composições opostas: uma com muito músculo e pouca gordura, outra com pouco músculo e muita gordura. A estrutura dos ossos, a idade e o histórico de treino também mudam o que é um peso saudável para cada um.
Além disso, as próprias fórmulas discordam entre si em alguns quilos. Por isso o jeito honesto de ler o resultado é como uma faixa de referência — um ponto de partida para a conversa, nunca um número a ser alcançado a qualquer custo.
Em quem treina força há anos, o peso saudável pode ficar bem acima do que as fórmulas indicam, justamente por causa do músculo. Na outra ponta, estar dentro da faixa não garante nada se a composição e os hábitos não acompanham.
Onde o IMC entra (e onde ele falha)
O IMC faz algo parecido: relaciona peso e altura e classifica o resultado em faixas. Pela faixa "normal" da OMS, de 18,5 a 24,9, uma pessoa de 1,75 m teria um peso adequado entre 56,7 e 76,3 kg — um intervalo de quase 20 kg, o que já mostra como a altura sozinha diz pouco. Você pode calcular o seu IMC e ver onde está nessa faixa.
O ponto cego é o mesmo das fórmulas: o IMC não sabe o que é músculo e o que é gordura. Quem treina força há anos pode aparecer como "sobrepeso" com pouca gordura; quem nunca treinou pode estar na faixa normal com gordura em excesso.
O que importa mais que o número da balança
- O percentual de gordura, que diz quanto do peso é gordura e quanto é massa magra.
- A cintura, sozinha ou dividida pela altura, que mostra a gordura da barriga — a que mais pesa na saúde.
- A força e o condicionamento, que medem o que o corpo consegue fazer.
- Os exames e o dia a dia: pressão, glicemia, colesterol, sono e disposição.
Se quiser olhar a composição, dá para estimar a sua massa magra só com peso e altura, e acompanhar a mudança ao longo dos meses.
Uma pergunta melhor do que "qual é o meu peso ideal?" é: em que peso eu consigo treinar bem, comer de um jeito sustentável e manter os exames em dia? A resposta costuma ser uma faixa — e ela é pessoal.
Conclusão
O peso ideal existe como referência, não como destino. As fórmulas de Devine, Robinson, Miller e Hamwi dão uma faixa razoável para a sua altura, mas não enxergam músculo, gordura nem saúde. Use o resultado da calculadora de peso ideal para ter uma ideia, e a composição corporal, a força e os exames para decidir o que fazer.


